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Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

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Sex | 28.01.22

52 semanas de 2022 #3

Uma memória

 

people-gf71488079_1280.jpgDesafio de escrita criativa  "52 semanas de 2022"

Escrever este texto é um grande desafio.
O grande desafio não está propriamente em escrever, mas em selecionar uma memória de um conjunto de milhares e milhares de memórias, com diferentes sentimentos associados e todas, de alguma forma, muito importantes para mim.

Escolhi uma, ao acaso, porque me ocorreu agora, depois de muito vasculhar nas gavetas da memória. Esta, gostaria de guardar.

Cá vai:

Os meus primeiros anos de escola não foram fáceis. Entrei na primária com cinco anos, uma rapariga franzina e muito tímida, cheia de medo de tudo e de todos.

Estive sempre em turmas um pouco complicadas, com muitos repetentes e crianças criadas em famílias disfuncionais. Lembro-me da escola como uma pequena selva onde era necessário lutar pela sobrevivência (emocional pelo menos) todos os dias. Claro que esta é a minha visão deturpada de criança, provavelmente as coisas não eram assim tão más. De qualquer forma, era assim que me sentia.

No sétimo ano, a minha turma foi repartida e cada metade passou para outras turmas. Foi muito bom porque fui para uma turma mais mista, com melhores alunos, entre os quais uma miúda que, na altura, era filha do presidente da câmara. Não que isso seja muito relevante, mas na altura a rapariga era conhecida por isso e por ser muito boa aluna. Pelo que me lembro, era uma pessoa de carácter muito decente e agradável.

Na altura, com 11 ou 12 anos, ganhei o hábito de andar com folhas de papel cavalinho A3, a desenhar o projeto de uma casa de sonho. Lembro-me bem de adorar fazer aquilo. Era uma casa em forma de "O", com um jardim interior e grandes janelas de vidro, com vista para o jardim, em todos os quartos. Acho que, ainda hoje, me agradaria uma casa assim.

A "Cátia" (chamemos-lhe assim) reparou no que eu estava a fazer e perguntou-me o que era. Lembro-me muito bem da sensação que tive na altura. 
Apesar de sentir timidez, fiquei muito curiosa com o facto de alguém parecer genuinamente interessada no que eu estava a fazer e não se dirigir a mim apenas para gozar ou importunar-me de alguma forma. Geralmente era isso que eu esperava das pessoas, alguma espécie de "pancadaria psicológica".
Sempre me habituei a que as pessoas me achassem esquisita e com interesses estranhos, nem que fosse pelo simples facto de estar a ler um livro. Acreditem ou não, na minha infância, no meio onde cresci, ler era considerado algo muito fora do comum do que devia ser o interesse normal duma criança.

De modo que, alguém estar a perguntar-me com interesse o que estava eu a fazer, era algo muito agradável e surpreendente.

Daí , eu virei-me para trás e fiquei um bocado a conversar com a Cátia. Foi uma conversa muito interessante e agradável e, embora não me lembre se voltámos a falar muito, lembro-me, sobretudo, de pensar com muito agrado, que, afinal, existiam pessoas (crianças) afáveis e capazes de ter interesses parecidos com os meus.

Acho que foi a primeira vez que ponderei na possibilidade de vir, alguma vez, a interagir mais com seres humanos. Até ali, os meus melhores amigos, tinham sido sempre gatos.

Por isso, Cátia, obrigada por teres falado comigo naquele dia. Provavelmente, foi um importante passo para, hoje em dia, ter bons amigos.

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