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Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

Seg | 24.08.20

A minha avó é que era uma verdadeira minimalista

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(Esta senhora, claramente, não é a minha avó.)

Hoje fui até à Mango. Vi que estava com saldos, entrei e pus-me a vasculhar uns vestidos pretos.

Depois espreitei as t-shirts, os tops e as saias compridas.

Em poucos minutos já me estava a dirigir aos provadores com os braços cheios de roupa.

Experimentei, não gostei, e decidi que aquilo era tudo uma grande tolice. Arrumei tudo nos cabides e deixei no local da roupa "experimentada", perto dos provadores.

A verdade é que não preciso de comprar roupa. Tenho mais do que suficiente e quando precisar de alguma coisa, efetivamente, comprarei.

Este ímpeto para o consumo é algo bem intrigante. A minha avó, por exemplo, não sofria disto. Tinha a mesma roupa durante anos, décadas, e só a deitava fora se realmente não servisse para nada.

A minha avó Leontina era uma verdadeira minimalista.

A minha avó, nos seus primeiros tempos de casada, fazia a sua própria roupa. Só mais tarde haveria de ter poder de compra para comprar roupa. Nunca comprou mais do que aquilo de que precisava mesmo.

Se a roupa se rasgava ela remendava as vezes que fossem precisas. Quando já nem dava para remendar, a roupa era transformada em pano de limpeza. 

A minha avó cortava chinelos de inverno para fazer chinelos de verão, tinha apenas uma roupa de sair e não seria estranho vê-la com uma meia de cada cor, por casa.

Lembro-me de ser criança e zangar-me com ela por deitar fora tudo o que lhe pareciam ser restos de jogos de tabuleiro e papelada. Agora faço o mesmo às minhas filhas. 

A minha avó era focada no  momento presente e fazia tudo com a delicadeza de quem, naquele momento, não tinha nada mais importante para fazer. Os seus cozinhados eram simples mas deliciosos, feitos com muito amor: o arroz de frango, o arroz doce, o pão de ló, o leite com chocolate, a caldeirada de peixe.

A minha avó arranjava tempo para brincar comigo, fazer roupa para as minhas bonecas e, mais tarde, para me ouvir desabafar durante horas sobre desgostos de amor.

A minha avó vivia com muito pouco, com 200 euros por mês e, mesmo assim, quando me via de mês a mês, dava-me sempre 50 euros. A dada altura deixei de insistir que não precisava de me dar dinheiro nenhum, que lhe podia fazer falta, porque era muito importante para ela dar-me o dinheiro. E não lhe fazia mesmo falta. 

A minha avó era tão simples e tão pouco ambiciosa como um monge. Tudo o que tinha lhe chegava. E, se alguém lhe oferecia um pouco mais, ela não usava, tão pouco valorizava. Guardava por não ter uso para lhe dar.

A minha avó fazia, cuidadosamente, bainhas nos panos de pó. Gostava de rebuçados (natas de caramelo) e bolachas Maria. Eram as suas únicas extravagâncias.

A minha avó, sem querer, ensinou-me a ser minimalista de verdade. Eu é que ainda não consigo praticar como deve de ser. Mas estou no caminho.

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