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Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

Vinil e Purpurina

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Sab | 18.07.15

Contos #5 - O Bufarinheiro

A vida dele era morna e doce como uma eterna tarde de outono.

 

Com 32 anos, o cabelo comprido desalinhado e um peculiar estilo grunge de desleixo cuidado, era muito atraente.

 

Tinha uma casa confortável, uma horta onde cultivava quase tudo o que comia, e as poupanças resultantes do seguro de vida dos pais.

 

Os pais, enquanto viveram, nunca o obrigaram a trabalhar.

 

Eram pessoas simples e empáticas, e entenderam que a normalidade do mundo era um conceito estranho e totalmente evitável.

 

Depois de acabar o liceu, arranjou um trabalho, mas a sua personalidade sensível não suportou mais de seis meses a natureza mesquinha do ser humano regular. De modo que não voltou a trabalhar.

 

Todavia não era ocioso. Levantava-se cedo para tratar da horta e fazer exercício físico.

 

A tarde era passada nos jardins da biblioteca, a devorar livros de filosofia, psicologia e história.

 

Para casa levava romances e ensaios. Por gosto, mantinha como hobby a profissão dos pais, que recolhiam objetos na lixeira para vender numa feira. Ele limpava-os e vendia-os na internet.

 

Ganhava um valor regular por mês e, por vezes, vendia os mais bizarros, em leilões online, por valores consideráveis.

 

Quando fazia, todos os dias, o mesmo caminho com a sua caquética mota, puxando um atrelado repleto de malcheirosos tesouros, as pessoas olhavam-no quase em choque.

 

Nunca o incomodou o olhar dos outros. Nunca se sentiu mal com as suas escolhas.

 

Tinha sido feliz até conhecer a Helena na biblioteca.

 

Tinham tudo em comum. Conversavam durante horas sobre todos os temas de que se lembravam, com especial incidência nas questões filosóficas e existenciais como convém ao início de qualquer romance.

 

Um dia ela perguntou-lhe qual era a sua ocupação.

 

Com o sorriso caloroso que o caracterizava respondeu que era bufarinheiro.

 

Nunca mais a viu.

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