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Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

Qua | 29.07.15

Espécie de ensaio sobre o tempo

Não compreendo as pessoas que se sentem aborrecidas por não terem nada que fazer. Por terem tempo a mais... Quase podia jurar que "tempo a mais" é algo que não existe.

 

Uma das melhores coisas de existir é a quantidade de possibilidades que temos à disposição quando dispomos de tempo e liberdade.

 

Existem tantos filmes bons para ver, músicas para ouvir, livros para ler, pensamentos para ter, coisas para inventar, reinventar ou interpretar... Tantas conversas para conversar, viagens para fazer, recantos para explorar.

 

Quando era muito nova e vivia numa pequena vila ribatejana, Alpiarça, parecia que nunca tinha nada que fazer. Não tinha irmãos, primos ou amigos com quem passar o tempo. Então, passava muito tempo sozinha a pensar no que poderia fazer. Às vezes ia até ao sótão da casa ao qual se acedia por uma escada de metal que havia numa pequena despensa.

 

O sótão era um sitio escuro e assustador, cheio de cangalhada, ao qual não creio que conseguisse ir muitas vezes hoje.

 

Mas, na altura, tinha uns 10 ou 12 anos, era um mundo de possibilidades misteriosas.  Pegava na mira da pressão de ar do meu pai, e usava-a para observar a casa que ficava no cimo de um "cabeço" a cerca de 700 metros da minha casa. A janela do sótão era, naturalmente, a mais alta da casa e, sendo o sitio tão pouco frequentado, encontrava ali todo o sossego e a inspiração necessários para colocar a imaginação a trabalhar.

 

Passava horas a observar a casa dos vizinhos sem que nada, efetivamente, se passasse. Mas eu ficava ali, a aguardar, a esperar com a paciência que nunca mais tive, que aparecesse o pastor alemão que ouvia sempre a ladrar, talvez um fumo saísse pela chaminé ou, com muita sorte, alguém aparecesse no quintal e tivesse uma atitude qualquer como estender uma peça de roupa no arame, ou carregar um balde de um lado para o outro, ou quem sabe algo realmente inesperado e original.

 

Acho que nunca aconteceu nada de especial, ou pelo menos que merecesse ficar na minha memória.

 

Outras vezes ficava só a observar o eucaliptal (que, infelizmente já não existe), as grandes vinhas que se estendiam atrás do meu quintal, por centenas de metros, e os quintais vizinhos, enormes e repletos de árvores de fruto e canteiros muito arranjados de tomates, feijão, nabos, alfaces, morangos se era tempo deles, muitas favas e couves, aqui e ali espinafres, sempre generosas quantidades de hortelã, salsa e alecrim.

 

Uma vez escrevi um poema sobre a flora que via da janela do sótão. Era um poema muito cuidado na forma e muito cuidado no conteúdo, muito sentido. Creio que era um soneto, direitinho, com duas quadras e dois tercetos. Abdicava de um dinheirinho para ter esse poema comigo. Tempo não dava, mas dinheiro dava. Sei que falava sobre árvores e plantas e do que eu sentia ao olhar pela janela do sótão, naquele momento específico, e como aquela paisagem me transmitia uma sensação de paz e de serenidade. Coloquei-o num envelope fechado e decidi que só o haveria de abrir algum tempo depois.

 

Tenho essa mania peculiar de guardar coisas para ler ou observar muito tempo depois de terem sido criadas. Acho que gosto do efeito que o tempo faz na nossa percepção e aceitação da realidade, e de como molda a nossa interpretação das coisas.

 

Na passagem de ano para 2000, eu e uns amigos colocámos uns objetos numa cápsula do tempo para abrir 20 anos depois.

 

Lembro-me que, em Alpiarça, desenhava muito, escrevia num diário, e inventava montes de brincadeiras que podia fazer sozinha: inventava discussões polémicas com um interlocutor imaginário onde eu argumentava tão fortemente em relação aquilo que defendia como em relação àquilo que era oposto às minhas convicções.

 

E assim passava o tempo... e passava-o bem. Lia mesmo muito. Lia estantes inteiras da biblioteca e cada livro era tão entusiasmante que nunca parava de ler, nem durante as refeições. O meu pai estava sempre a repreender-me e dizia que ler tanto devia "fazer mal à cabeça". Do seu ponto de vista, creio que tinha alguma razão.

 

Mais tarde, continuei a ter sempre com o que ocupar o tempo. Mas o tempo começou a faltar-me mais. De qualquer forma, sempre tive a liberdade de escolher o que fazer com ele. Sempre fui eu a decidir como passá-lo e, a aproveitar o que tinha da forma que achei melhor.

 

Hoje, acho que tenho muito tempo de qualidade. Tenho tempo de qualidade em quase todas as horas do dia, mesmo numa fila de espera nas finanças ou na segurança social. Desde que tenha uma esferográfica e um bloco de papel comigo tenho sempre tempo de qualidade. Se não tiver o papel e a caneta, uso a mente para imaginar pequenos filmes ou video clipes.

 

No fim de semana passado usei o meu tempo para estar com a família e amigos e conhecer um sitio novo: Santa Maria, a ilha vizinha daquela onde vivo.

 

Usei o tempo para algumas das melhores coisas que existem entre uma das minhas especialidades: "exercitar o lazer" com pessoas que considero verdadeiramente interessantes.

 

Ainda tivémos o bónus de privar com desconhecidos caricatos: um casal de jovens Austríacos (muito bem parecidos por acaso) que corriam o mundo de mochila às costas, e um presumível louco que passava o dia inteiro a beber cerveja e a cantar altíssimo.

 

Embora nesta foto não se note, encontrei nesta ilha, a água mais cristalina que já vi.Sou capaz de aprender a nadar só para estabelecer uma relação mais intima com o mar de Santa Maria.

 

 

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Piscinas naturais da Maia, na ilha de Santa Maria onde passámos tempo de muita qualidade, a usufruir de um paraíso quase deserto

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