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Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

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Qua | 08.07.15

Mudei de casa 10 vezes #1 - O quarteirão Cor de Rosa

ramada
 
 

 

Saio de casa um pouco antes das 8h00 da manhã. O ar, de verão a acabar, está cada vez mais fresco.Desço a rua em direção ao meu local de trabalho. Logo no inicio, à direita, encontro uma barriga enfiada numa camisa, sempre o mesmo senhor, sempre à mesma hora, na mesma posição, a camisa muda de cor mas não de feitio. Atravesso o centro da cidade antes de chegar ao trabalho. As casas brancas e altas, contornadas de cinzento vulcânico, pertencem quase todas a bancos e companhias de seguros. É pena.

 

Algumas estão degradadas, essas não pertencem a bancos, penso eu.

 

Gosto do centro da cidade de Ponta Delgada, mas acho que podia ser mais bonito. Acho sempre que tudo podia ser melhor. Deve ser por isso que mudei de casa tantas vezes.

 

Desde que saí de casa dos meus pais, há 12 anos, mudei de casa 10 vezes.

 

Não,não tenho um feitio terrível que ninguém consegue aturar! Sou sagitário e gosto, naturalmente, de mudança. Estou sempre pronta a fazer as malas (bem... quase sempre).

 

Fui para Lisboa logo que acabei a universidade e comecei a viver na Ramada, num apartamento com duas raparigas extremamente independentes: uma colombiana de 25 anos que era gerente no Mac Donalds e tinha emigrado com o namorado (quando a conheci já era ex),e uma rapariga de Lisboa, de 23 anos, cujos pais e irmãos tinham emigrado para Londres (sempre me perguntei o que é que ela tinha ficado a fazer, sozinha, em Lisboa).

 

Gostava de viver ali, gostava das conversas que tinha com a colombiana, das nossas idas à praia, das fotos que ela me mostrava da sua família, e das suas histórias de vida, tão diferentes daquilo que eu conhecia como realidade. Ela era muito engraçada: levantava-se às 6 da manhã para se maquilhar maravilhosamente bem, todo o quarto dela era branco, assim como a roupa e os objetos que lhe pertenciam. Fazia as malas e ia para Espanha e outros sítios, ficando em casa de amigos virtuais que nunca vira na vida. E parecia correr sempre bem.

 

Tentou convencer-me a ir a uma discoteca de salsa e outras latinidades. Não me apanhou nessa. Acho que a admirava. :) Conseguia poupar dinheiro para enviar à família. Já não existe ninguém assim.

 

A outra rapariga não se dava com ela. Eu falava com as duas, mas gostava mais da colombiana.

 

O quarteirão onde vivíamos era cor de rosa e tinha tudo o que precisávamos: supermercado, banco, farmácia, um clube de vídeo e um café maravilhoso que vendia umas bolachas caseiras deliciosas. O funcionário do clube de vídeo gostava muito de cinema independente e aconselhou-me alguns dos filmes mais bizarros e interessantes que já vi.

 

Na altura, no inicio dos meus 20 anos, ver cinema independente era o meu principal passatempo, naquilo que eu chamo uma neo-adolescência prolongada. Foi nessa altura que vi o "Ichi the Killer", o filme mais violento da minha lista de visionados (o Saw é para criancinhas). Cheguei a sentir um pouco de empatia pelos masoquistas. Nesse tempo, conseguíamos arranjar filmes mesmo bons, tão bons que nos faziam vivê-los de dentro e transportá-los para a nossa própria vida.

 

Não via os filmes na minha casa, era sempre em casa de amigos, quase todos rapazes, e quase sempre em grupos de 3 ou mais. Esqueci-me de quanto tempo vivi no quarteirão cor de rosa porque, na verdade, passava muito pouco tempo em casa. Fartei-me de estar tão longe de tudo e mudei-me para uma cave em Odivelas. Sempre ficava mais perto do metro e tinha a vantagem (pensava, ingenuamente, eu) de ser a casa de uma conhecida.

 

 

To be continued…

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