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Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

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Qui | 14.04.16

Mudei de casa 10 vezes #2

Um quarto na cave de um bairro africano

 

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Tenho a capacidade fantástica de criar a minha vida na minha própria cabeça e torná-la tão intensa que compete com vantagem com a "realidade material".

 

Fiz isso durante muitas fases da minha vida e, na segunda casa onde vivi depois de ter saído de casa dos meus pais, fazia-o de uma forma que ainda está completamente vívida na minha caixinha de memórias.Depois de ter saído da Ramada, fui viver para casa de uma conhecida do círculo de amigos do meu namorado da altura. Foi uma decisão precipitada e má (não a de ter saído da casa anterior, mas a de ter ido para ali) de que falarei mais à frente.

 

A casa ficava num bairro de Odivelas, maioritariamente habitado por africanos e árabes. O ambiente do bairro era bom e eu gostava da mistura cultural que havia por ali. Existiam lojas com produtos fantásticos, daqueles que não se encontram em mais lado nenhum.

 

O único problema é que a casa ainda ficava um pouco longe do metro e todos os dias eu vinha do trabalho de metro e tinha que andar um bom bocado a pé, depois da uma da manhã, passando por locais muito duvidosos. Na altura era mais corajosa (ou louca) do que agora, mas o facto é que nunca tive problema nenhum.

 

A casa ficava numa cave e eu alugaria um quarto que tinha uma janela interior para o hall de entrada.

 

Era uma casa escura e pouco agradável (embora também não fosse desagradável de todo), com um ar húmido e antigo, e um cheiro constante a fumo. Como era na cave e não existiam janelas para o exterior a não ser na sala comum, onde estava sempre a filha da dona da casa com o namorado e montes de amigos, eu passava muito tempo na zona onde se estendia a roupa. Era uma espécie de pátio com uma janela coberta por uma rede para o exterior. Ficava ali para poder fumar sem encher a casa de (mais) fumo. Sentava-me em cima de uma caixa de madeira, fumava o meu cigarro e ficava a ouvir esta música em repeat e a escrever histórias de amor na minha mente.

 

Curiosamente pensava muito naquele que viria a ser meu namorado em breve.Um dia mostrei-lhe a música. Ele odiou-a. :) Não achava piada nenhuma àquilo.Eu não me importava. Era a banda sonora das minhas alucinações racionais naquela altura e isso só a mim dizia respeito. :P

 

Voltando à casa, aquele quarto interior foi o sítio onde menos gostei de viver até hoje.

 

Na verdade pouco vivia ali, como pouco vivia em todas as casas onde vivi "sozinha". Os quartos que aluguei eram mais um sítio onde tinha as minhas coisas e uma garantia de teto se me chateasse com o meu namorado. Olhando para trás, era mesmo isso. Passava todos os dias e noites fora de casa e muito raramente dormia ali.Se tivesse passado ali mais tempo, teria saído mais cedo.

 

O quarto principal era ocupado pela filha da dona da casa e pelo namorado. Nunca fomos amigas. Éramos demasiado diferentes. Tinhamos uma relação de cortesia, que às vezes me soava a amizade forçada, e era só. Simpatizava muito mais com o namorado dela, que era açoriano e viria a encontrar anos mais tarde nos Açores quando vim viver para cá. Ele parecia-me mais genuíno, simpático e interessante.

 

O facto é que eles eram daquelas pessoas demasiado "à vontadinha" para a minha forma reservada de ser. E as dezenas de amigos que pululavam pela casa a toda a hora também.

 

Ouvia os visitantes a falarem das "minhas sopas" na cozinha, depois de abrirem a panela para espreitar, dei com uma criancinha a passear um peluche do meu quarto pela casa e quando ia buscar um pão ao congelador para comer (praticamente a única coisa que eu tinha no congelador) era informada de que tinha sido retirado para dar lugar a um polvo. Diziam-me a rir "Ou ocupar o espaço com pão ou com um polvo não é?". É pá. Não é. É o meu espaço, aluguei-o e se prefiro pão a polvo ninguém tem nada com isso. Quando aluguei a casa ninguém me tinha dito que podia ocupar um pouquinho do congelador mas só se fosse com produtos que custassem mais do que 5 euros.

 

Um dia entrei em casa e estava lá um rapaz de capuz, com um ar caricato. Ele apresentou-se, cumprimentou-me com dois beijinhos, e encetou conversa dizendo que seria ótimo conversarmos um bocadinho para nos conhecermos melhor. Bem... até o achei simpático mas, andando a correr como andava sempre, indiquei rapidamente que não teria tempo para o conhecer melhor.

 

O meu quarto tinha o teto cheio de estrelas florescentes, que transportava comigo há anos para onde quer que fosse e uma colcha de criança, com flores pequeninas coloridas que ainda hoje tenho. Até era fofinho e agradável mas o dia em que me senti melhor lá dentro foi aquele em que arrumei as minhas tralhas em pouco mais de uma hora para nunca mais lá voltar. Isto depois de uma acesa discussão com a rapariga que lá vivia acerca do pagamento de umas contas de TV e Internet. Tendo em consideração que mal lá parava, estava com pouca vontade de pagar avultadas quantias mensais por um serviço que, ainda por cima, chegava mal e porcamente ao meu quarto. Muitas vezes tinha que invadir o quarto alheio (algo combinado previamente com a rapariga) para ajeitar a antena da TV e poder ver uma série, nas raras vezes em que estava em casa, com uma imagem sem qualidade nenhuma.

 

Enfim... viver ali era no mínimo sufocante. Mas admito que era por uma questão de incompatibilidade de personalidades, facto pelo qual tenho 50% da culpa.Dali sairia para Benfica, a 10 minutos a pé do Centro Comercial Colombo, para dividir casa com mais  quatro raparigas que não conhecia.

 

Essa foi uma experiência boa. Falarei dela depois.

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