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Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

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Dom | 07.02.16

O meu parto por ventosa

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Antes de entrar no Hospital, com a alegre disposição de quem pensa que vai para uma festa do pijama.

 

Depois deste título sugestivo, devem estar à espera de uma história cheia de detalhes interessantes. :)

 

Adiante.

 

Estava grávida e tal, não vale muito a pena explicar como aconteceu (acredito que estão todos familiarizados com o procedimento), e aproximava-me das 40 semanas.

 

Como isto agora está muito simplificado, o meu médico já tinha marcado a indução do parto, para alguns dias depois das 40 semanas, caso não ocorresse de forma natural no devido tempo.

 

Antes de pensar sequer em engravidar, imaginava que as mulheres deviam entrar em pânico à medida que se aproximava a hora do parto. Nada mais longe da verdade. Pelo menos comigo.

 

Fiquei mais nervosa nos primeiros meses de gravidez, do que no parto em si, ou nos momentos que o antecederam.

 

O facto é que andei 9 meses a preparar-me psicologicamente, não só para o parto, mas também para ser mãe. Sabia que existiam muitas probabilidades de me sentir insegura, por isso pesquisei muito sobre tudo e mais alguma coisa, li livros inteiros sobre o assunto e, sobretudo, falei imenso com amigas que já tinham filhos e experiências diferentes. Vi vídeos no youtube, li muitos blogs, fóruns e tudo o que se possa imaginar.

 

Devo sublinhar que não tenho irmãos nem tive nunca grande contacto  com crianças pequenas, muito menos recém nascidos. Ou seja, não percebia absolutamente nada de nada daquilo em que me estava a meter.

 

Portanto, já que não tinha prática, adquiri toda a teoria que pude.De modo que, passadas 40 semanas a Lara, como pessoa inteligente que deve ser, não estava com pressa nenhuma de vir conhecer este belo mundo onde se sente fome, frio e frustração.

 

No dia combinado, dirigi-me ao hospital com o meu namorado, logo pela manhã. Estava fresca e bem disposta, com uma magnífica cabeleira de 9 meses sem queda de cabelo (belas hormonas), um pouco ansiosa, mas nada nervosa.

 

Fiquei a aguardar à porta da maternidade, na sala de espera, onde fui vendo chegar várias mulheres na mesma situação que eu. Tive uma sensação engraçada ao vê-las. Pensei "Ena tantas grávidas! E estão tão grávidas!" sem me aperceber que eu estava exatamente na mesma situação.Entretanto apareceu uma enfermeira que trouxe consigo murmúrios de que não existiam camas para tantas grávidas. Excelente!Não sabia bem o que pensar daquilo, mas lá fiquei a aguardar. Entretanto, com o passar do tempo de espera, lembrei-me de mencionar que tinha diabetes gestacional e que talvez fosse boa ideia comer qualquer coisa. Assim que o mencionei à enfermeira ela mandou-me logo entrar, porque parece que tinha prioridade, e deitar numa maca, enquanto fazia uns exames e me media a glicose.

 

Foi aqui que experienciei pela primeira vez o temível "toque", o que mais me custou durante todo o processo.

 

Para algumas pessoas o toque não representa dor, nem uma experiência negativa, para mim foi um bocado traumático.

 

O toque é feito para verificar a espessura e dilatação do colo do útero, é repetido imensas vezes até ao trabalho de parto e, para mim era como ter dores menstruais multiplicadas por 1000, e as minhas são mesmo muito fortes, daquelas que fazem vomitar, desmaiar e perder a sensibilidade no corpo.

 

Depois do toque percebeu-se que eu não tinha qualquer dilatação. É suposto termos 10 dedos de dilatação para que o parto normal se possa realizar.Não me preocupei muito porque estava ali para induzir o parto.

 

Quando o meu médico chegou, "aplicou-me" um comprimido para provocar o parto e disse-me para ir dar uma volta, almoçar e voltar quando estivesse a sentir contrações. Maravilha.

 

Fui até ao centro comercial, almocei uma bela sandes integral com vegetais, passeei e... nada de contrações.

 

Voltei ao hospital e fiquei de vez internada. Deram-me uma linda bata bege aberta atrás e fiquei num quarto individual onde me espetaram uma agulha na mão, por onde seria aplicado soro com uns componentes que iriam aceleram o parto. Lá fiquei com o Milton, ligada à máquina de CTG, à espera que algo acontecesse.

 

Aparvalhámos um pouco, tirámos umas selfies pré parto e tal. Passado um tempo, comecei a sentir algumas dores menstruais, as tais contrações. As enfermeiras vinham, de vez em quando, fazer o "toque" (umas eram mais meiguinhas que outras o que fazia uma diferença muito grande) e concluir que a dilatação não evoluía dos 2 dedos.

 

Assim fiquei até à noite, quando chegou a hora de saída do meu médico e ele me indicou que continuaria a ser seguida pelo médico que vinha a seguir. Não fiquei muito satisfeita, porque confio no meu médico como em mais ninguém, mas não havia muito a fazer. Continuei calma, mesmo quando o Milton foi para casa, depois de eu insistir muito com ele, e eu passei a noite sozinha no hospital, sem comer quase nada senão à noite, quando pararam a indução. Parece que de noite, deixam de induzir o parto, para retomarem na manhã seguinte.  Dizem que de noite se trabalha pior. Aceitei pacificamente essa justificação, por mim, queria toda a gente de pestana bem aberta na hora H.

 

No dia seguinte, voltaram a induzir o parto por medicação intra venosa mas, apesar das contrações serem mais fortes, de acordo com o CTG já que eu continuava a sentir apenas dores menstruais (por sinal bem menos dolorosas que o toque), não passava dos 4 dedos de dilatação.Entretanto, as contrações parecem ter ficado mais fortes e acharam por bem dar-me epidural. Eu também achei bem. Nunca tive muita queda para o masoquismo. Na verdade eu queria a epidural para as dores do toque, mais do que outra coisa qualquer. A epidural não representou qualquer problema. Nem me lembro de sentir a picada, só uma sensação fresquinha a percorrer as costas. O problema foi deixar de poder sair da cama. Confesso que, ao contrário do que podem imaginar, fazer xixi naqueles penicos de aço do hospital não é uma experiência lá muito divertida.

 

O Milton esteve sempre comigo, mas às tantas, aquilo já devia estar a ser uma valente seca para os dois. Já não havia assunto para falar, nem grande espírito ou posição para ver filmes. Chegou a noite e a história repetiu-se. Paragem da indução e passar a noite sozinha no hospital.

 

Nos entretantos, as equipas médicas e de enfermagem iam mudando. As opiniões também iam mudando.

 

Se umas enfermeiras achavam que não tinha que ter dores e me reforçavam a epidural, as outras não o faziam sem uma autorização do médico, umas diziam para fazer força, outras diziam para parar de fazer força. A maior parte do pessoal não primava pela simpatia e, a não ser que eu perguntasse, ninguém me explicava o que estava a acontecer e quais eram os planos. O meu médico foi o único que o fez.Entretanto, uma das enfermeiras rebentou-me as águas para acelerar o parto. Sem grande efeito.

 

Na segunda noite, sem conseguir dormir, ouvi uma mulher a gritar de uma forma aterradora. Logo depois ouvi um bebé a chorar.

 

Chorei um bocadinho também. Estava a sentir-me mesmo muito sozinha e desanimada. Estava ali há dois dias, sem comer quase nada e sem me poder levantar enquanto outras mulheres davam 3 gritos e os miúdos nasciam logo. Não me pareceu justo. Também não encontrei a quem atribuir a culpa por isso limitei-me a ficar desanimada.

 

Esta foi, sem dúvida, a pior fase de todas. O desânimo, a falta de apoio que senti, as indicações contraditórias que me davam, a falta de informação, o não ter nada a dizer sobre a forma como gostaria que o parto decorresse, o ninguém me perguntar nada sobre a forma como me estava sentir psicologicamente...

 

Isso foi o que me custou mais.No terceiro dia, nada parecia ter mudado. Ia sempre pedindo reforço de epidural (já não sentia uma perna) e ia recebendo indicações diferentes de pessoas diferentes. "Faça força", "Não faça força", "Não respire assim", etc.

 

Apareceram uns 6 ou 7 médicos diferentes que me iam observando e tirando notas, sem olhar muito para mim.Alguns eram muito simpáticos, tão simpáticos que os confundi com enfermeiros. :)Entretanto apareceu uma jovem médica que me perguntou com um ar falsamente sábio algumas coisas (devia ter percebido logo que estava a aprender e aquele ar sério era farsa para disfarçar a falta de segurança) e indicou logo que não iria ter mais epidural porque ela queria que eu sentisse dores para poder fazer força na altura certa.Chamei-lhe muitos nomes na minha mente e nem lhe respondi.

 

Perto do meio dia, chega o médico de serviço com um ar muito descontraído. Era o primeiro ser humano bem humorado que tinha visto nos últimos dias, o que me deixou automaticamente com uma sensação de confiança. Se ele estava de bom humor é porque o caso não estava grave.

 

Mais toques e tal que, entretanto e graças às doses cavalares de epidural, deixei de sentir tanto e ele diz que vamos para o bloco de parto.Fiquei perplexa. Ao fim de mais de dois dias de espera, sem ninguém me dar qualquer tipo de informação sobre a evolução do trabalho de parto, eu estava quase convencida de que iam optar por fazer cesariana. Eu própria já o tinha sugerido, farta que estava de estar ali deitada, sem me poder mexer, e com o ânimo completamente esfrangalhado.

 

Continuei calma, apenas levemente surpreendida. Estava farta de ali estar, muito cansada, mas nunca me senti nervosa.Na sala de parto, o Milton estava ao meu lado mas confesso que mal dei por ele a não ser quando o médico lhe perguntou se precisava de ir deitar-se numa cama, dada a sua palidez.

 

Fizeram-me rebolar (muito penosamente dado o meu tamanho e o meu entorpecimento) da cama para a mesa de partos,  e fiquei com várias pessoas à minha volta. Um senhor com o tamanho de um segurança de discoteca ficou a empurrar-me a barriga com toda a força, enquanto eu própria fazia força, o que resultou em dores horríveis, semelhantes às do toque. Eu ia conversando com o senhor "calmamente como é evidente (not)", dizendo-lhe de forma assertiva, que teria que parar de me empurrar a barriga porque estava a esmagar-me os pulmões e eu não conseguia respirar. Aquilo não foi nada agradável. Nesta fase mandei uns gritos valentes, não horríveis ou desesperados, mas daqueles de quem está  a fazer uma grande força, assim como se estivesse a tentar levantar sozinha uma rocha enorme.

 

Entretanto aquela médica nova saca de uma ventosa para puxar a Lara. Nem me ocorreu que ela podia ser uma estagiária e que eu estava a servir de cobaia. A ventosa partiu-se sem fazer, aparentemente, qualquer efeito. Ela usa outra ventosa que, curiosamente, também se partiu. Eu devia estar mesmo dormente para não desancar aquela mulher e lhe dizer que se afastasse rapidamente da minha pessoa e da pessoa da minha filha. Entretanto ela desapareceu por si e, magia das magias, o obstetra usou uma terceira ventosa e, em menos de nada, sacou a Lara cá para fora. Não senti absolutamente dor nenhuma nesta fase. Sentia o que estava a acontecer, mas sem dor.

 

E puseram em cima da minha barriga uma espécie de golfinho grande, de uma cor entre o vermelho, o rosa e o azulado. Achei-a tão grande!

 

Não chorei, nem ri, nem me senti extremamente emocionada. Estava mesmo muito cansada.Entretanto o médico fez os seus "bordados" durante um período de tempo que me pareceu interminável, e assim que estava pronta para ir para o quarto com a Lara a enfermeira assistente fez o quê?

 

Ora temos 3 bonitas hipóteses:

 

a) Fez-me umas massagens nos ombros para eu relaxar após um período de tanto esforço.

b) Olhou com atenção para a Lara e parabenizou-nos pela grande e bonita menina que tinhamos fabricado.

c) Olhou para o Milton e disse que se tinha portado muito bem, para homem.

 

Nenhuma destas. A hipótese correta aproxima-se mais da c) mas foi mais algo assim:

A enfermeira virou-se para o Milton e disse: "Li na sua ficha que era engenheiro informático de modo que vai ajudar-me a resolver um probleminha. É que a minha filha está com um problema no skype e tal..."Aparvalhada. Ainda mais. Foi o que eu fiquei.

 

Quando voltei ao quarto e me mediram a tensão, estava com 5/3 e a enfermeira caiu em si e olhou para mim como se duvidasse que estivesse consciente. Perguntou-me 3 vezes se me sentia bem. Por acaso sentia-me bem.

 

E pronto, depois, foram mais 2 dias com a Lara no hospital.É, foi isto.Parecendo que não, faz-se bem.

 

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