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Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

Vinil e Purpurina

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Qua | 07.04.21

Uma história sobre autoestima

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Autoestima não é olharmos para o espelho e vermo-nos belos e brilhantes. Pode ser, mas não é necessariamente isso. Autoestima é gostarmos de nós, exatamente como somos. 

Acho que tenho uma boa autoestima aliada a um auto conhecimento relativamente justo. Conheço-me bem. Muito bem. Consigo dissecar os meus pensamentos, sonhos e pesadelos com competência. Sei de onde vêm os meus medos e emoções. Já controlar uns e outros é uma arte que ainda não dominei, mas isso é matéria para outro texto.

Conheço os meus defeitos e as minhas virtudes.  Conheço os meus defeitos melhor. E aceito-os pacificamente. Vivo bem com eles e é por isso que tenho uma boa autoestima. Gosto de mim, apesar de todos os meus defeitos. Suporto-me e aprecio a minha própria companhia. 

Nem sempre foi assim.
Em criança, tinha a autoestima em níveis medíocres. A culpa não era minha, nem era de ninguém. As causas foram várias: a presença constante da crítica na minha criação, um ambiente de constante comparação onde eu era sempre o elo mais fraco, ter entrado demasiado cedo para a escola , para uma turma de crianças que viviam em ambientes tóxicos, entre outras coisas que não terão interesse agora.

E havia, como ainda há, aquele sentimento de não pertença, aquele sentimento constante de nunca poder ser igual aos outros, de nunca poder sentir o mesmo que os outros, de não conseguir gostar das mesmas coisas ou ter as mesmas habilidades. Agora, gosto disso. Antes tinha vergonha.

Comparava-me constantemente com as crianças à minha volta. Eu achava que era sempre a mais feia, a mais desajeitada, a mais magra, a mais mal vestida, a menos prendada, a mais ingénua.

A determinada altura, as coisas mudaram. Existiram muitos fatores que levaram a isso, desde a leitura frenética de livros atrás de livros, ao facto de ter ido viver para Lisboa, para um ambiente totalmente livre e encorajador da diferença, até ao amadurecimento próprio da idade. Mas, o que acho mesmo que me ajudou a desenvolver autoestima foi o facto de estar sempre a pensar sobre a existência e sobre o comportamento humano. Olhava à minha volta e estava constantemente a analisar e interpretar tudo o que via. Ainda hoje sou assim.

Houve um episódio, há cerca de 25 anos, que mudou muito a forma como me via.

Tinha 13 ou 14 anos e estava a trabalhar, durante as férias do verão, na "apanha do tomate". Na minha terra, era comum os jovens trabalharem em campanhas agrícolas durante o verão e eu comecei com 13 anos.

Na altura trabalhava com uma amiga, na equipa onde trabalhava a sua mãe e outras mulheres. Ganhávamos de acordo com o número de caixas de tomate que conseguíamos apanhar e, na hora de almoço a mãe da minha amiga ficava a apanhar caixas para a filha, para ganhar mais dinheiro. Eu almoçava rápido e ia apanhar caixas para mim, no resto do tempo de almoço. Não queria ficar para trás. Nisso não queria. Já que em tudo o resto me sentia muito inferior à minha amiga.

A minha amiga era querida e eu gostava muito dela, mas a mãe (e a minha também) envolviam-nos numa competição bem idiota. A mãe dela comparava-nos constantemente sublinhando como a filha era uma "mulherzinha", muito atinada, enquanto eu era uma destrambelhada e uma "Maria Rapaz".  De modo que eu, em plena adolescência, me sentia um trambolho ambulante. E não era. Não era mesmo. Mas era assim que me via.

Acontece que nesse ano, havia dois rapazes mais velhos a trabalhar ali. Com 18 anos, tinham entrado para a universidade, e estavam a fazer as férias ali, tal como nós. Íamos juntos na carrinha de caixa aberta que apanhava todas as pessoas em casa de madrugada.

A primeira vez que os vi, fiquei muito envergonhada. Acho que devia ficar a olhar para os pés, à espera que aqueles momentos constrangedores, com aquelas criatura estranhamente apelativas passassem. 

Do que me lembro, eles eram muito giros. E, para mim, isso significava que para além de bonitos, deveriam parecer inteligentes. Nunca mais apanhei criaturas do sexo oposto tão interessantes em campanhas agrícolas.

Lembro-me de se meterem com a minha amiga, de uma forma simpática, e de eu olhar ainda mais para os pés com cara de rabo.

Os dias foram passando e eu ia-me sentindo da forma possível, concentrando-me no trabalho, mas já apreciando a companhia ocasional daqueles rapazes altos e interessantes, mesmo ao longe. As hormonas já trabalhavam adequadamente, na altura.

Claro que a minha amiga deveria estar tão agradada com a presença dos rapazes como eu, embora não me lembre de falarmos nisso.

Lembro-me da minha amiga ir para o campo vestida com camisa branca e calças de ganga de um rosa claríssimo, apertadas com um delicado cinto.

Eu, em contraste, levava a bela da legging azul escura, t-shirt larga escura e um belo boné da mesma cor. E, não raramente, andava com um tomate esborrachado no rabo, já que me sentava no chão para comer e, ao contrário da minha amiga que chegava ao fim do dia com a roupa imaculada, eu parecia que tinha andado a fazer um baile numa pocilga. Era desastrada,vá. E nem os meus devaneios românticos me levavam a esforçar para ser mais feminina. Ainda hoje é assim, acho.

Um dia, ao almoço, os rapazes estavam sentados perto de nós. O Gabriel, o que eu achava mais giro e que era também mais extrovertido, disse qualquer coisa. Não sei se falou comigo diretamente ou se estava a falar com o amigo. Lembro-me que ele era muito simpático e cumprimentava-me sempre. Acho que me arranjou uma alcunha qualquer relacionada com os meus olhos azuis, o que achei querido, mas não passava muito disso.

Nesse dia, em que estávamos os quatro sentados perto uns dos outros (ele e o amigo e eu e a minha amiga) ele referiu um livro qualquer que eu tinha lido também. Como era um assunto pelo qual eu teria muito interesse, perdi a timidez e comentei qualquer coisa sobre o livro (posso ser tímida, mas sou ainda mais tagarela). Ele olhou para mim, muito admirado por conhecer o livro com a minha idade (já não faço ideia de que livro era e do que estávamos a falar).

Sei que ficamos bastante tempo a conversar e eu deixei de me sentir envergonhada. Já nem me interessava muito se o Gabriel era giro ou não. Agora ele parecia-me uma pessoa muito interessante com quem conversar. O resto do verão foi ótimo. Tinha perdido a vergonha e criámos ali uma relação de semi-amizade muito gira. Falava com ele com desembaraço e ele parecia gostar muito de conversar comigo também. Não vou jurar que o interesse romântico não estava por ali,  embora mais disfarçado.

Acho que foi  a primeira vez em que olhei para mim como uma pessoa potencialmente interessante, apesar dos meus modos e da minha roupa menos apelativa. Foi a primeira vez, que me lembre, que soube que o meu ativo mais valioso estava dentro da minha cabeça. E a minha autoestima começou a desenvolver-se no melhor sentido. Este foi, sem dúvida, um momento marcante para que passase a criar uma melhor imagem de mim própria.

Não ficou impecável, mas nunca mais voltaria aos níveis de antes.

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