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Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

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Sex | 24.07.20

Uma música, uma série e um livro

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Primeiro veio a música - Elephant Gun, de Beirut -, por sugestão do Youtube. Andava a ouvir "Beach House" há dias, ou semanas, e Beirut aparecia sempre nas sugestões.

Um dia ouvi. Elephant Gun, uma das primeiras. Depois East Harlem, Postcards from Italy e outras.

Como é meu hábito quando oiço músicas de que gosto, fui procurar a descrição de emoções semelhantes às minhas nos comentários do Youtube. Foi aqui que encontrei Capitu, a série que tem Elephant Gun na banda sonora.

Depois de Capitu foi fácil chegar ao livro de Machado de Assis: Dom Casmurro.

Rapidamente arranjei o livro: primeiro em pdf, depois numa edição de bolso, com letras demasiado pequenas, que trouxe da biblioteca. Após perceber que precisava de uma lupa para o ler (o que não dava oportunidade à leitura fluida e prazerosa que desejava retirar daquele livro) fui buscar uma edição maior e mais robusta à biblioteca.

Li-o num instante e com uma satisfação que não imaginava poder encontrar num livro escrito no final do século XIX por um homem. Que livro maravilhoso! Que personagens bonitas, complexas e profundamente humanas. 

Depois veio a série, que já sabia que queria ver e só não vi antes por não podia deixar de ler a obra que a fez existir.

Vi apenas o primeiro de cinco capítulos e aconteceu o inesperado: é muito melhor do que imaginei! Incontestavelmente melhor!

Esta série é, com certeza, a obra de arte mais bonita que já vi em televisão. É magnífica, sublime em cada pormenor. 

A história, aparentemente simples, é o pano de fundo para espreitarmos os traços morais da sociedade brasileira do fim do século XIX, e nos afundarmos na mente de um homem que tenta resgatar um pouco de sentido para a sua existência, através da escrita das memórias do que foi a sua vida e a sua relação com Capitu: a amiga de infância, que se tornou sua mulher e que ele acredita tê-lo traído com o seu melhor amigo.

As emoções dos personagens são-nos contadas através de uma encenação teatral excecionalmente bem concebida, acompanhada por uma banda sonora contemporânea, muito bem selecionada. Nada foi deixado ao acaso e cada pormenor se conjuga para nos levar bem para dentro da densidade emocional de um narrador, angustiado e sombrio, que tenta resgatar um pouco dos anos felizes que viveu.

Esta série é uma interpretação perfeita do livro. Se depois de ler o livro fiquei com algum rancor ao narrador, considerando-o fraco, infantil e mimado, nesta série abraço-o com toda a empatia que tenho pela sua dor. 

Brilhantemente interpretada por Michel Melamed que interpreta o narrador e personagem principal (não desmerecendo a excelente interpretação dos outros atores) e dirigida por Luiz Fernando Carvalho, esta série tem uma estética tão inusitada quanto bela que, aliada a uma narrativa extremamente poética, nos prende em cada segundo.

De acordo com a wikipédia, tenho que ver mais obras deste diretor: "Constituem elementos da poética do diretor: o estilo barroco de sobreposições e cruzamentos entre gêneros narrativos, a relação com a instância do Tempo, os símbolos arquetípicos da Terra e a reflexão sobre a linguagem do melodrama social e familiar."

Aconselho esta série a todos os que gostam de qualquer tipo de arte e são capazes de se emocionar com uma boa performance, mesmo que seja em japonês e não percebam uma palavra do que está a ser dito. Esta série é assim, bonita em cada pormenor, com a vantagem de ser em português e ter diálogos maravilhosos!


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